Transtornos Depressivos

Atualmente os diagnósticos patológicos são pautados em dois “catálogos” que definem e caracterizam uma série de doenças, são eles O DSM-V  (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais – 5ª edição) e o CID – 10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – 10ª edição, em breve a 11ª edição entrará em vigor).

Desde a 3ª edição do DSM, os “transtornos depressivos” de maneira geral foram categorizados como “Transtornos de Humor”, que, por sua vez, são subdivididos em: a) Transtorno Depressivo Unipolar (a depressão propriamente dita, em suas formas, que será exposta nesse artigo); b) Transtorno Afetivo Bipolar “TAB”, que será tratado em um outro artigo, oportunamente.

O médico psiquiatra, psicólogo clínico-hospitalar e psicanalista Dr. Alfredo Simonetti, define a depressão como o estado, cujos sentimentos apresentam tonalidade afetiva negativa, com tristeza, falta de prazer. Falta de energia, perda de interesse, mal-estar, desamparo e angústia, com vivências ligadas a perdas, mortes ou fracassos.

Segundo Simonetti, as principais características da depressão são: 1) Humor Triste (a forma da pessoa enxergar o mundo é triste, sem graça, sem brilho); 2) lentificação psicomotora; 3) Anedonia (falta de prazer e interesse existencial). As demais características a serem elencadas também fazem parte dos transtornos depressivos, mas são complementares.

Existem diversos tipos de transtorno depressivo unipolar, sendo os principais: Depressão Maior; Distimia ou Depressão Leve (ou Transtorno Depressivo Persistente); e Depressão Secundária, dentre outras.

A gravidade do transtorno depressivo dependerá da quantidade de sintomas identificados na pessoa em questão, conforme veremos adiante.

De acordo com o DSM-V, a Depressão Maior é aquela que apresenta um maior número de sintomas, pressupondo a existência de ao menos cinco dos seguintes: humor deprimido; acentuada diminuição do interesse ou prazer grande nas atividades (anedonia); perda ou ganho significativo de peso ou do apetite; alterações do sono (insônia ou hipersonia); agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada  dificuldade de raciocínio e concentração; ideação suicida ou pensamentos recorrentes em morte e até mesmo alucinações e ideias delirantes (características psicóticas), sendo pelo menos um deles o humor deprimido ou anedonia.

Para o referido diagnóstico é necessário a observação dos sintomas na maior parte do tempo por, no mínimo, duas semanas consecutivas, devendo causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

A Distimia ou Depressão Menor, por sua vez é mais leve, porém crônica e constante, com duração de, pelo menos, dois anos consecutivos, pressupondo humor deprimido na maior parte do dia e ainda, dois ou mais dos seguintes sintomas: Alteração no apetite (diminuição ou aumento); insônia ou hipersonia; baixa energia ou fadiga; baixa autoestima;  concentração diminuída ou dificuldade em tomar decisões; e sentimentos de desesperança.

Para ambos os diagnósticos acima, é necessário que os sintomas relatados não sejam provenientes de alguma outra doença orgânica, nem do uso ou abstinência de substâncias psicoativas, sendo nesse caso enquadrado em casos de Depressão Secundária. Também não se deve constatar episódios de “mania” (exaltação), sendo nesse caso sintomas próprios do Transtorno Afetivo Bipolar.

Já o CID 10 categoriza essa patologia pelo código F32 e a classifica como “episódios depressivos”, definindo-a da seguinte forma:

Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da autoestima e da autoconfiança e frequentemente ideias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave”.

As causas dos Transtornos Depressivos podem ser explicadas por uma perspectiva biológica ou psicológica.

No que diz respeito à perspectiva biológica dos transtornos depressivos, pesquisas indicam que pode haver uma predisposição genética, um desequilibro bioquímico e, ainda, alterações na atividade cerebral.

No organismo humano existem sistemas neurotransmissores que exercem influência na regulação do humor, sendo os principais a Serotonina e a Noradrenalina/Norepinefrina que interagem com outros neurotransmissores e neuromoduladores. Sabe-se que a baixa produção ou circulação desses neurotransmissores no organismo acarretam em um humor deprimido.

Ademais, estudos mostram menos atividade cerebral durante os episódios depressivos. O lobo frontal esquerdo, que desempenha uma atividade significativa em momentos de emoções positivas, fica mais propenso à inatividade durante os estados depressivos, com ativação do lado direito do córtex pré-frontal. Estudos também mostram que o lobo frontal de pessoas deprimidas é 7% menor que o de pessoas não deprimidas e ainda possuem um hipocampo mais vulnerável a danos relacionados ao estresse.

Com relação à perspectiva psicológica, é possível constatar-se que eventos estressantes e traumáticos, como perdas e mudanças no estilo de vida, podem contribuir para que o indivíduo desenvolva um transtorno psicológico, inclusive, o transtorno de humor. Sob determinadas condições as pessoas se tornam deprimidas quando acreditam que não têm controle sobre o estresse ou trauma em suas vidas, atingindo uma sensação de desesperança e desistência.

Um fato triste, por si só, não indica, necessariamente, o desenvolvimento de um transtorno. É importante observar a perspectiva do sujeito sobre determinado fato. Ainda que seja um fato negativo, o sujeito pode encontrar um bom direcionamento para conduzir sua vida naquele contexto, ou, pelo contrário, mergulhar em um sofrimento sem fim.

A forma de pensar do indivíduo também pode influenciar no desenvolvimento de um episódio depressivo. Pessoas deprimidas enxergam a vida através de lentes escuras. Usam suposições intensamente negativas sobre suas vidas, levando-as a expandir as experiências ruins e minimizar as experiências boas.

Essa tendência a ver a vida de um lado negativo pode sim ter uma origem orgânica ou genética, ocasionando uma relação de causa e efeito que se retroalimenta. Pessoas com visão distorcida de suas experiencias considerando-as negativas, podem estar mais vulneráveis a fatos estressantes, que por sua vez irá confirmar sua forma de visão e assim sucessivamente.

O transtorno depressivo pode ser tratado por meio de medicação e/ou Psicoterapia.

Os medicamentos mais usados para o tratamento da depressão são os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS); antidepressivos tricíclicos e os Inibidores da Monoaminoxidase. Quaisquer desses tipos de medicamentos devem ser prescritos por um médico, de preferência, um psiquiatra, sendo que durante todo o tempo de utilização da medicação até seu encerramento deve haver o acompanhamento do médico responsável.

Já a psicoterapia é feita com um psicólogo devidamente inscrito o Conselho Regional de Psicologia do estado em que atua. Cada psicólogo terá a sua forma de atuação de acordo com a abordagem escolhida. São exemplos de abordagens de atendimento psicoterapêutico: Psicologia Humanista; Gestalt-terapia; Abordagem Centrada na Pessoa; Fenomenologia-Existencial; Terapia Cognitivo-Comportamental; Análise do Comportamento, dentre outras.

Referências:

Barlow, David H; Durand, Mark R. Psicopatologia: uma abordagem integrada. Tradução Noveritis do Brasil;  Revisão técnica Thais Cristina Marques dos Reis. 2ª edição. São Paulo: Cengage Learning, 2018. 

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Myers, David G. Psicologia. Tradução Daniel Argolo Estill; Heitor M. Corrêa. 9ª edição. Rio de Janeiro: Editora gen LTC, 2012.

Organização Mundial da Saúde. CID-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.

Simonetti, Alfredo. Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença. 8ª edição. Belo horizonte: Artesã Editora, 2018.

A Alienação Parental e sua síndrome em potencial

Apaixonaram-se, casaram-se, formaram a “Família Doriana” e viveram felizes para sempre??? Não é bem assim… A situação pode ficar feia, muito feia…

O que começa com carinhos e amores pode muito bem terminar em guerra declarada… uma guerra sem mortos, mas com muitos feridos. Dentre eles, crianças e adolescentes que se tornam vítimas de um divórcio complicado de seus pais e cuidadores.

Nessa guerra usa-se uma “arma invisível”, porém com grande potencial destrutivo, comprometendo a saúde mental de pais e, sobretudo, dos filhos privando-os de uma relação parental importantíssima para o desenvolvimento psicossocial de crianças e adolescentes.

O nome dessa “arma” é Alienação Parental, e consiste em uma atitude, por parte de um dos genitores, que tem como objetivo incentivar os filhos a repudiar ou rejeitar o outro genitor, gerando um afastamento e, possivelmente, um rompimento de vínculos. Constitui um “abuso emocional” disfarçado de “proteção”.

Por se tratar de assunto que permeia situações reguladas por lei, como a concessão de guarda de filhos menores a pais conflitantes, assim como o comprometimento do bem estar emocional desses filhos, há aqui uma confluência entre o Direito de Família e a Psicologia, fazendo deste tema um assunto interdisciplinar.

Sendo assim, cabe esclarecer que, desde o advento do Código Civil de 2002 (que por si só já trouxe muitas inovações em relação ao retrógrado código anterior de 1916, dentre elas, as que diziam respeito a casamentos, dissoluções conjugais parentalidade e filiação). Houve também, no meio jurídico, um vislumbre da atribuição da Guarda Compartilhada, com uma grande inclinação para essa escolha. A Lei 11.689/2008, modificou determinados artigos do Código Civil vigente (de 2002), introduzindo no ordenamento jurídico a Guarda Compartilhada e, posteriormente, a Lei 13.058/2014 veio a consolidar a Guarda Compartilhada como a modalidade preferencial nos casos de dissolução conjugal, sendo a atribuição da guarda monoparental uma opção secundária, decidida conforme o caso concreto.

Ocorre que, sem a frieza da lei, com a separação conjugal, sentimentos de rejeição, abandono e traição, por parte de um dos genitores (ou até mesmo por ambos), podem se converter em raiva ou ressentimento e gerar um desejo, mesmo que involuntário, de vingança ou retaliação, em relação ao outro, utilizando-se dos filhos para satisfazer esse desejo. Dessa forma, um dos genitores (alienador) priva o outro genitor (alienado) do convívio com o filho.

A obstrução de contato é uma forma bastante comum que o alienador se utiliza para afastar o filho do outro genitor como, por exemplo, deixar de informar ao genitor alienado sobre os compromissos da criança em que seria necessária a sua presença; não repassar recados; interceptar correspondências; não cumprir com os horários de levar e trazer a criança para o outro genitor, atrapalhando o período de visita, dentre outros.

Outras formas de alienação são: entrar em contato demasiadamente com a criança para atrapalhar o tempo com o outro genitor ou realizar o programa favorito da criança nesse período; insinuar que o outro cônjuge não gosta, não tem tempo ou não procura o(a) filho(a); desqualificar ou insultar esse genitor, na presença do filho e, até mesmo, fazer chantagem emocional com a criança, alegando se sentir sozinho e abandonado na ausência do filho.

A criança ou adolescente (e não apenas o genitor alienado) são os principais prejudicados pela prática da alienação parental, podendo acarretar na tão falada Síndrome de Alienação Parental (SAP) que somente é configurada quando o(a) filho(a), de fato, se afasta do outro genitor, com base na conduta do genitor alienante. Ou seja, é quando a “lavagem cerebral”, de fato, se instaura e passa a produzir os efeitos nocivos.  

Uma outra forma, ainda mais grave de alienação parental, é a denúncia de falsos abusos sexuais ou emocionais, alegando que o pai/mãe não cuida corretamente do filho ou que cometeu algum abuso, podendo inclusive, implantar falsas memórias de abuso sexual na criança, as quais elas acreditam serem verdadeiras. Sendo assim, quando a criança passa a ter esses abusos como verdade, passam a temer ou rejeitar o cônjuge alienado, configurando a síndrome.

Os aspectos patológicos da SAP se manifestam na díade “genitor alienador / filho” em que o filho é programado para rejeitar o genitor alienado, assim como na díade “filho / genitor alienado” em que o filho lhe demonstra rejeição / hostilidade.

A tentativa de alienação por um genitor, por si só, com campanhas difamatórias, não constitui a síndrome em si. Mas, evidentemente, comportamentos de alienação de um dos pais devem ser combatidos, a fim de se evitar que a SAP se configure.

Nesse sentido, a legislação brasileira, por meio da Lei 12.318/2010, trata do assunto definindo da Alienação Parental, em seu artigo 2º, conforme abaixo transcrito, e coibindo essa prática. A legislação, evidentemente, não dispõe sobre a SAP, como síndrome, mas sim no sentido de evitá-la.

Art. 2o  Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este.

A SAP foi definida pela primeira vez, em 1985, pelo Psiquiatra norte-americano Richard Gardner:

“A Síndrome de Alienação Parental (SAP) é um distúrbio da infância que aparece quase exclusivamente no contexto de disputas de custódia de crianças. Sua manifestação preliminar é a campanha denegritória contra um dos genitores, uma campanha feita pela própria criança e que não tenha nenhuma justificação. Resulta da combinação das instruções de um genitor (o que faz a “lavagem cerebral, programação, doutrinação”) e contribuições da própria criança para caluniar o genitor-alvo. Quando o abuso e/ou a negligência parentais verdadeiros estão presentes, a animosidade da criança pode ser justificada, e assim a explicação de Síndrome de Alienação Parental para a hostilidade da criança não é aplicável”. *

Cabe enfatizar que, conforme o próprio Gardner define, quando há um real motivo para a criança se afastar de um dos genitores, não há o que se falar em SAP. De forma semelhante, quando a criança passou a coabitar com um dos cônjuges desde a tenra infância, sem contato contínuo com o outro genitor, desacostumando-se de sua presença e resistindo a encontros, também não se constitui como tal.

Na infância, a estrutura psíquica e emocional da criança ainda está se consolidando e o contato com ambos os pais é de suma importância para seu desenvolvimento afetivo e psicossocial, assim como outras formações subjetivas.

Além do contato em si, a aprendizagem afetiva é essencial: o afeto não se desenvolve instintivamente, nem por processos maturacionais, e sim por aprendizagem, o que ocorre por meio da convivência.

Crianças e adolescentes privados do contato ou convívio com um dos genitores, podem desenvolver sentimentos de inadequação, não pertencimento, baixa autoestima, insegurança, culpa, medo, depressão, retraimento, os quais podem ser levados para a vida adulta.

Ainda que haja um contato posterior, o que foi perdido durante a infância é irreversível. O que se observa é uma relação ressentida entre genitor alienado e filho, com um distanciamento afetivo imenso e, talvez, irreparável.

A preservação do vínculo entre pais e filhos é tão importante que, inclusive em casos de suspeitas de abuso ou maus tratos, pais/mãe e filhos podem se valer de visitas assistidas (por pessoas previamente estipuladas) para garantir o contato sem comprometer a integridade física do filho. Essa situação pode se mostrar desconfortável, mas deve ser colocada como uma possibilidade, desde que a criança/adolescente não seja colocada em risco.

Para elucidar as consequências maléficas da SAP, indico o documentário “Morte Inventada” (2009), com roteiro e direção de Alan Minas, que traz depoimentos de pais e filhos(as) vítimas desse fenômeno.

O que se observa é uma completa inversão de sentidos, no que diz respeito ao direcionamento afetivo de pais e mães magoados uns com os outros, que se esquecem que o foco deveria ser o bem estar de seus filhos. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90) tem como base o princípio de proteção do melhor interesse da criança e do adolescente.

É compreensível que, no que diz respeito a uma legislação geral ou específica, haja a necessidade de ressaltar princípios básicos, como norteadores de uma conduta social. Mas será que no contexto familiar é necessário lembrar aos pais que o foco deveria ser o bem estar de seus filhos em formação?

Muitas vezes, o pai alienador ou mãe alienadora têm uma disfunção parental ou uma estrutura psíquica instável, podendo ter um perfil superprotetor e controlador, ou, ainda, colocando-se no papel de vítima. Provavelmente, não prejudicam seus próprios filhos intencionalmente, agem sem levar em conta as consequências psicológicas neles provocadas, movidos por ódio, raiva e mágoa.

Se há um abalo emocional forte após um divórcio complicado, seja por uma traição ou pela própria convivência, a ajuda deveria ser buscada de alguma outra forma, como por exemplo uma terapia. Se você, leitor, conhece alguém que passa por uma situação similar, tente abrir-lhe os olhos, incentive que procure ajuda. Caso contrário, a saúde mental dos pequenos é que será comprometida.

*Transcrição literal da tradutora

Referências:

BUOSI, Caroline de Cassia Francisco. Alienação Parental: uma interface do Direito e da Psicologia. Curitiba: Juruá Eitora, 2012.

SILVA, Denise Maria Perissini da. Guarda Compartilhada e Síndrome da Alienação Parental: o que é isso? Campinas, SP: Armazém do Ipê, 2009.

BRASIL. Lei nº 12.318, DE 26 DE AGOSTO DE 2010. Dispõe sobre a alienação parental e altera o art. 236 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. DOU, Brasília, DF,  26  de  ago. de 2010. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12318.htm> Acesso em 15 de novembro de 2020.   

GARDNER, Richard A. O DSM-IV tem equivalente para o diagnóstico de Síndrome de Alienação Parental (SAP)? Richard Gardner (2002). Tradução para o português por Rita Fadeli. Disponível em: <https://fc243dbe-a-62cb3a1a-s-sites.googlegroups.com/site/alienacaoparental/textos-sobre-sap/Aliena%C3%A7%C3%A3oParental-RichardGardner.pdf?attachauth=ANoY7cp_jbK1agwxTGvRTDA5T23DClfK2hmI36xY9AvO-Xli2Y_gpgl6VIdH623k5BMKEKo6Q1mt0zfQY1nkyLrSEpVuFP-7IXDK529mp42u7O3vZZ42tu-6buxCKLsEC1XRtYAlJG8otqFfu1oSadzBtT1cVffRefqNXy-PjBPCvfxFad0Al5AXNZ_HE5a3CBLrf_CDsKsjnpSFDtcyrkCf3rCkZnm5S0PjgzzSeiy_8x1l7T7eDPZtzY8PgrsgtqMhIGuH8d1t7ph1h3aiO-Ncv53kBHkH-Uv4yYGMoIn4pBi5r0kF-4w%3D&attredirects=0> Acesso em 15 de novembro de 2020.   

Quem não tem ansiedade?

Atualmente fala-se muito em ansiedade. Difícil é encontrar alguém que não tenha seus momentos de ansiedade. É uma sensação desagradável, incômoda, mas nem sempre é algo a ser tratado.

Em muitas ocasiões a ansiedade ocorre como uma reação natural às adversidades da vida. Em determinadas situações, diferentes daquelas que estamos habituados no dia-a-dia sentimos um desconforto ou tensão. É o que sentimos naquelas ocasiões em que somos submetidos a algo desconhecido, algo que nos desafia, ou até mesmo que tememos, como por exemplo, uma entrevista de emprego, a apresentação de um trabalho, um encontro. Há um certo sofrimento em antecipação daquilo que está por vir.

Circunstâncias como essas, em que há um estímulo externo, colocando-nos em estado de ansiedade e tensão, provocam determinadas reações em nosso organismo, tais como palpitações, inquietação, taquicardia, suor, diarreia, dentre outros sintomas.

Segundo o psicólogo humanista-existencial americano Rollo May “ansiedade é a apreensão desencadeada por uma ameaça a algum valor que o indivíduo considera essencial para sua existência como personalidade”.

Esse é um tipo de ansiedade é normal e faz parte dos sentimentos naturais do ser humano. São reações proporcionais ao estímulo que a desencadeou, muitas vezes, sensatas e racionais. A ansiedade é aliviada por uma atividade proativa. Em determinadas ocasiões em que a ansiedade faz com que o indivíduo aja no sentido de crescer, buscar oportunidades, sair de uma situação de desconforto, pode até ser um recurso saudável.

No entanto, há de se ter cuidado para que esse estado de ansiedade “normal” não seja uma situação constante na vida do indivíduo. A constância do indivíduo em estado de alerta pode o levar ao estresse, que comprometerá sua saúde.

A ansiedade passa a ser considerada patológica quando, mesmo em situações comuns, sem um estímulo externo, a pessoa está em estado de alerta, com reações fisiológicas, comportamentais e psicológicas desproporcionais à circunstância em que se encontra. Esse tipo de reação causa sofrimento para si ou para as pessoas a seu redor, causando-lhes prejuízos em algum aspecto da vida. As preocupações são fora de controle e, muitas vezes, crônicas.

Abaixo, falaremos sobre alguns dos Transtornos de Ansiedade mais conhecidos:

– Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC):

Atualmente, observa-se uma certa banalização do TOC por pessoas dotadas de algumas manias, seja de limpeza, organização ou simetria. Embora tais manias possam ser desagradáveis e incômodas, em grande parte das vezes não se enquadram no diagnóstico de TOC, sendo essa uma doença mais grave que meras manias.

Para descrição do TOC, se faz necessário diferenciar a obsessão da compulsão. A pessoa que é acometida por esse transtorno é invadida por pensamentos ou imagens persistentes, considerados “obsessivos” que causam ansiedade e levam a pessoa a uma “compulsão” para alívio da ansiedade. Essas imagens e pensamentos obsessivos (geralmente negativos), são repetitivas e incontroláveis. Quanto mais o indivíduo tenta se desfazer de tais obsessões, mais elas impregnam. Já as compulsões, são os comportamentos e gestos repetitivos que o indivíduo pratica para aliviar a ansiedade. Tais gestos, não têm necessariamente coerência com o pensamento obsessivo, por exemplo, uma pessoa que acha que algo muito grave irá acontecer se ela não praticar determinado movimento corporal.

Para que haja o diagnóstico, é necessário que haja um prejuízo da rotina do indivíduo. Assim, uma pessoa que confere se trancou a fechadura diversas vezes, mas saiu de casa no tempo devido, não tem TOC, ao contrário da pessoa que não consegue sair de casa, faltando em seus compromissos para conferência da fechadura, permanecendo com o pensamento obsessivo.

– Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG):

Este transtorno é caracterizado por uma preocupação excessiva, sem um estímulo desencadeante. Trata-se de uma ansiedade crônica (o diagnóstico se dá com pelo menos seis meses de sintomas) podendo a pessoa conviver por muitos anos com o TAG, sem nem saber quando começou. A pessoa se preocupa exageradamente com tudo, de forma incontrolável. Está sempre em estado de alerta e acelerada, com sentimentos de apreensão, mesmo sem motivo aparente. Enxerga o futuro como algo incerto e ameaçador. O TAG tem uma prevalência maior nas idades entre 20 e 30 anos.

– Síndrome do Pânico, com ou sem Agorafobia:

A crise de Pânico é um ataque repentino com uma sensação abrupta e intensa de pavor que dura alguns minutos (cerca de 10 a 20 minutos), minutos esses que parecem eternos enquanto duram. Traz sintomas físicos como: taquicardia, palpitação, dores no peito, respiração ofegante; sudorese, tremores, náuseas; e sintomas psicológicos: medo de morrer, de perder o controle, de enlouquecer, dentre outros. Essa crise é desencadeada por uma estimulo equivocado do Sistema Nervoso Central, com o aumento da atividade cerebral. Esse transtorno acomete mais mulheres que homens.

Uma vez que a pessoa tenha experienciado uma crise ou ataque de Pânico, com sensações terríveis esta se torna uma experiência inesquecível. Passa a temer novas crises, ela se vê numa situação de ter “medo do medo”, configurando o Transtorno ou Síndrome do Pânico. 

A Síndrome do Pânico pode ou não vir acompanhada da Agorafobia, sendo mais comum que venha. A Agorafobia é o medo intenso de estar em lugares difíceis de obter ajuda, como por exemplo, medo de sair de casa sozinho, medo de lugares públicos ou transporte público, medos de lugares muito abertos, medo de filas ou multidões.

– FOBIAS ESPECÍFICAS:

Trata-se de um medo persistente, irracional, inexplicável e desproporcional a um objeto especifico, exemplo: claustrofobia, zoofobia, acrofobia, aracnofobia. As pessoas acometidas pelo Transtorno de Fobias Específicas têm consciência de que seus medos são exagerados, podendo até sentirem vergonha, mas não conseguem controlar seus medos. Evitam ao máximo o objeto de suas fobias sofrem prejuízos por isso em seus quotidianos.

Quando expostas a seus objetos fóbicos, ficam em estado de pavor. Mas esse transtorno não deve ser confundido com a crise de pânico. Enquanto os sintomas da fobia podem ser previstos e evitados, através da não exposição do sujeito ao objeto fóbico, os ataques de pânico são imprevisíveis e inevitáveis, já que não há um estímulo específico que desencadeie a crise.

– Transtorno de Ansiedade Social ou Fobia Social:

Não se trata de uma mera timidez, nem de introversão. A timidez é um traço da personalidade de uma pessoa, que mostra um certo acanhamento diante de outras, mas não impede que tenha um convívio social normal. Já a introversão diz respeito a pessoa que se sentem confortáveis quando estão só, sem a necessidade de aprovação de outros.

O transtorno de ansiedade social, por sua vez, também chamado de fobia social limita a vida social afetiva e profissional devido a um desconforto intenso e desproporcional. As pessoas acometidas por fobia social evitam o contato com o novo, se privam de novas experiências, possuem rotinas rígidas, preocupam-se demasiadamente com aprovação dos outros. Sentem-se expostas em situações sociais, enfrentando medo e ansiedade, com sintomas de taquicardia, sudorese, tremores, e até mesmo o medo das próprias sensações decorrentes da exposição.

– Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT):

Este transtorno advém da exposição de uma pessoa a uma situação traumática, como por exemplo, a experiência de situação tragédia ou de violência, sequestro, estupro, testemunho de algum crime. Após o evento traumático, a lembrança constante desse fato faz com que a pessoa reviva a situação novamente, com sensações desagradáveis, podendo estas revivências ocorrerem por meio de sonhos, pensamentos invasivos, alucinações, dentre outros. Podem ser tão intensas que confundem o indivíduo com a realidade atual, podendo ainda, serem somadas a sensações físicas. O TEPT pode ocorrer de forma aguda (ocorre dentro de três meses após o evento); crônica (ocorre dentre três a seis meses após o evento); de início tardio (ocorrem mais de seis meses depois do evento).

A ansiedade, tanto em sua forma normal quanto em seu desenvolvimento patológico, deve ser observada e cuidada. A ansiedade normal, é uma reação natural do ser humano a um estímulo externo diferente, devendo observar-se se as reações fisiológicas provocadas no corpo estão em proporções equitativas, cuidando-se ainda para que, não haja situações tão frequentes de estímulos desencadeantes para que não haja estresse. O cuidado com saúde mental, com sessões regulares de psicoterapia e prática de hábitos saudáveis, contribuem para um bom direcionamento dessa ansiedade. Já os transtornos de ansiedade que atingem um estado patológico devem ser devidamente tratados, pois já se configura uma situação de sofrimento. Os tratamentos podem ocorrer de diversas formas, dentre elas, a psicoterapia e o tratamento medicamentoso (com prescrição de um médico psiquiatra).

Bullying não é brincadeira, é coisa de gente grande (Parte 2)

Há alguns dias, postamos um artigo falando do bullying enquanto desdobramento de situações anteriores de violência, negligência e autoritarismo. Vimos que se trata de uma situação de violência aprendida e propagada, seja na a escola ou em outro ambiente de socialização, inclusive de adultos.

Mas se quem propaga o bullying são pessoas que já foram vítimas de alguma circunstância desajustada, quem são seus alvos? O que os diferencia?

Na situação de bullying há uma evidente configuração de desequilíbrio de força e poder. Ainda que o agressor já tenha sido vítima, em circunstâncias prévias àquele ambiente social, agora ele muda de posição. O oprimido passa a ser o opressor.

As pessoas que experimentam o bullying, de maneira geral, são aquelas que em algum momento da socialização transpareceram maior fragilidade e menos ferramentas internas de posicionamento ou defesa. Também podem ter vivenciado situações impróprias de tratamento de seus cuidadores, como negligência, maus-tratos, e até falta de afeto, acarretando maior vulnerabilidade afetiva, psicológica e social.

Entretanto, em vez de terem sua agressividade aflorada e repassarem esse mal adiante, essas pessoas deixam esse sofrimento contido e internalizado, refletindo baixa autoestima e, consequentemente, tornam-se passivos alvos de bullying, com poucos recursos de enfrentamento das adversidades.

A diversidade também é um fator que pode contribuir para que uma pessoa se torne o alvo do bullying. O diferente tem dificuldade em se encaixar e sua diferença, se torna justamente um destaque percebido e não tolerado por outros e, dessa forma, passa a receber insultos, intimidações, agressões físicas e verbais, e até exclusões e protagonistas de boatos cruéis.

Se entre os meninos, de maneira geral, é comum que as agressões se tornem físicas, nas meninas, isso é pouco comum. Nelas, os maus tratos e hostilidade se manifestam em atos mais sutis, que não são menos prejudiciais. Há uma violência psicológica que é muito forte, podendo ser verbais, como os insultos e não verbais como as exclusões de grupos.

Uma outra situação é a de pessoas que testemunham o bullying em outros colegas e amigos. Alguns tomam suas defesas, mas, infelizmente é bastante comum que não interfiram, para evitar se tonarem os próximos alvos.

Uma vez instaurada a situação de bullying a vítima percorre um caminho de dor, sofrimento, e muitas vezes, solidão.

De certa forma, essas pessoas passam a acreditar no que é dito sobre elas e depreciam-se a si mesmas. Ficam mais isoladas, evitando o contato social (se estudantes, podem ter o comportamento de evasão escolar) e, muitas vezes desenvolvem sintomas psicossomáticos e tendem ao consumo de substâncias psicoativas, autolesões no corpo (como o cutting) e, numa hipótese muito drástica, o suicídio.

A autoestima que provavelmente já era baixa, diminui ainda mais. Os sentimentos de inferioridade, impotência, “menos valia” intensificam-se, assim como a depressão e emoções negativas, como medo, ansiedade e estresse, podendo comprometer a habilidade em contato social e relacionamentos. Os efeitos não são apenas de curto, mas de longo prazo e podem ser levados ao longo de uma vida.

O bullying é um mal que deve ser observado e controlado em sua origem. Não é à toa que se diz que a “educação” é a base de tudo. Crianças que recebem de seus cuidadores, carinho, afeto, atenção e um cuidado com a educação têm mais chances de ter mais estabilidade emocional, autoestima e empatia. Desse modo, serão menos impetuosas e violentas, por um lado, e por outro, conseguirão se valorizar e se posicionar quando expostas a algo incômodo por seus pares.

Com essa configuração ideal de cuidado e ensinamentos, a violência pode até se apresentar, ocasionalmente, mas seria menos crônica.

Nas escolas, que são os primeiros ambientes de interação nos quais as crianças se inserem, e constroem processos de socialização para a vida, deve haver uma conscientização sobre o assunto, numa perspectiva macrodinâmica. Deve-se incentivar a amizade, respeito, valorização dos diferentes tipos de personalidades, sejam essas mais expansivas ou introspectivas, a tolerância às diferenças, e, ainda, a defesa das pessoas menos empoderadas.

Por outro lado, numa perspectiva mais pontual, os membros da equipe pedagógica devem estar atentos para identificar situações de bullying e combatê-lo, conjuntamente com pais e cuidadores. Os primeiros sinais de desarmonia na escola devem ser observados e ter um direcionamento para a empatia e aceitação.

Pais que recebam reclamações de seus filhos como agressores, devem participar na conscientização de seus filhos do mal que estão infligindo aos colegas. Ajudá-los a perceber que o bullying não é brincadeira, tampouco um modo saudável de resolver suas frustrações e angústias. Devem ensiná-los o respeito ao próximo, aceitação das diferenças e, sobretudo, a empatia e a compaixão.

Já os pais que identificam seus filhos como vítimas do bullying devem agir, com foco e determinação. As crianças e adolescentes que sofrem bullying muitas vezes não pedem ajuda. Esse não é um assunto de fácil conversa para eles. Muitas vezes sentem vergonha de abrir essa situação para seus cuidadores, pois contar para um adulto que está sendo humilhado também pode ser humilhante para este jovem. Muitas vezes seus recursos e suas forças de combater à situação minguam até que se vejam entregues.

Esses pais devem acompanhar de perto a rotina de seus filhos e observar seus comportamentos e sentimentos com uma frequência regular. Mostrar interesse em seus sentimentos e, caso constatem algo incomum, acionem o alerta e ofereçam ajuda psicológica, emocional e social.

Bullying não é brincadeira, é coisa de gente grande (Parte 1)

Qual criança ou adolescente já se encontrou (ou ainda se encontra) em uma situação de constrangimento ou provocações entre colegas e “amigos”? Qual adulto não se lembra de ter passado por isso? Ou ainda, qual pessoa, de qualquer idade já viu alguém ser submetido a essa situação “sem saída”?

Antes de tudo, cabe esclarecer o significado da palavra “brincadeira”. Segundo o dicionário, a palavra remete ao “ato de brincar”; que, por sua vez, denota “divertir-se”, dentre outros sinônimos que causam “bem-estar” e “descontração”.

Quando, pelo menos, um participante desse contexto de descontração passa a ser alvo de provocações, receber apelidos desconfortáveis ou qualquer forma de tratamento desagradável ou quando algum dos envolvidos não quer mais participar e é obrigado a receber esse tratamento, isso deixa de ser uma brincadeira e passa a ser uma imposição. Essa imposição recebe o nome de “Bullying”.

O termo “bullying” é uma palavra de origem inglesa, derivada de “bully” que, em tradução livre, significa “valentão”. A(s) pessoa(s) que ocupa(m) esse lugar de “valentão” faz(em) uso de sua força física ou poder de influência sobre outros para intimidar, abusar, dominar, humilhar e até mesmo agredir alvos com menos recursos de defesa, de forma frequente e habitual.

O bullying não é brincadeira. É agressão: psicológica, verbal e, muitas vezes, física. Trata-se de uma relação de abuso de poder, repleto de humilhações, podendo gerar, inclusive, exclusão e discriminação.  

Esse fenômeno é muito comum entre crianças e adolescentes, no ambiente escolar, mas não se circunscreve apenas dentro dos muros da escola, podendo ocorrer do lado de fora e até mesmo cyberbullying. Ressalta-se que esse fenômeno não é uma exclusividade de estudantes e escolares, podendo ocorrer também entre adultos, em ambientes de trabalho e sociais.

Mas de onde vem o bullying e por que ele se manifesta?

Será que, de fato “o homem é o lobo do homem”, como pensava Thomas Hobbes, e o ser humano é naturalmente mau e egoísta? Ou será que, conforme pensava Rousseau “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”? Talvez ambos os pensamentos tenham um tanto de verdade.

Considerando a individualidade de cada pessoa, a manifestação do seu “modo-de-ser” ocorre de diversas formas. É possível que o indivíduo nasça, sim, com uma tendência a praticar atos violentos. Mas falaremos aqui da violência aprendida.

Percebe-se, de maneira geral, que as pessoas que possuem experiências de violência marcantes na infância, tendo sofrido ou testemunhado atos de violência em casa, por parte de seus pais, cuidadores, e até mesmo irmãos, têm mais suscetibilidade de se tornarem agressivas. Aprendem comportamentos violentos em suas casas, crescem com a noção de que são comportamentos normais e repetem tais comportamentos com amigos, colegas e nas demais relações interpessoais.

Mas não são apenas os atos violentos em si, aprendidos dentro ou fora de casa que originam o bullying.

Pessoas que sofreram alguma forma de negligência parental ou falta de afetividade na infância estão mais vulneráveis psicológica e socialmente e, portanto, mais sujeitas a serem parte desse fenômeno, seja na posição de agressores, quanto de vítimas.

Pais que demonstram expectativas sobre o comportamento dos filhos na sociedade ou que exercem algum tipo de monitoramento de seus filhos, estabelecendo limites, podem contribuir para a prevenção do bullying, tanto para quem os pratica, quanto para os alvos.

O autoritarismo e a superproteção parental também podem comprometer o desenvolvimento social da criança no sentido de adquirir autonomia, independência e traquejo social, que, quando insuficientes, podem torná-las mais sujeitas a serem alvo do bullying ou num sentido inverso, deixando-as menos tolerantes com as diferenças, tornando-se os algozes dos mais fracos.

Os cuidadores das crianças não devem ser os únicos responsáveis por combater o bullying preventivamente. A escola é um ambiente repleto de diversidades e, portanto, propício para a criação de rótulos, muitas vezes, pelos próprios professores. que estigmatizam os alunos com comportamento “inapropriado”, com desempenho escolar ruim ou até mesmo colocam em evidência os alunos que têm um desempenho bom, tachados de “CDFs”. Assim, os dois polos estão vulneráveis.

Aos educadores (professores e diretores) também compete a função de evitar situações em que as rotulações aconteçam e, quando identificarem um possível início de ocorrência do bullying, se mobilizem contrariamente. Devem os educadores enaltecer a diversidade e não as reprimir.

Trata-se de uma questão seríssima que deve ser combatida na origem. Podemos notar que até a pessoa que impõe o bullying aos colegas, não é simplesmente um “vilão”. Esse mal que ele propaga, em algum momento lhe foi imposto e aprendido, gerando em um ciclo vicioso.

O intuito desse artigo não é vitimizar o agressor, mas entender o bullying como um evento complexo e maléfico para todos os envolvidos, não apenas o alvo do bullying. Oportunamente, faremos um novo artigo falando sobre os efeitos do bullying em quem o recebe.

Suicídio: um assunto necessário

Este é um fenômeno devastador que, quando acontece perto de nós, transforma nossas vidas radicalmente, de maneira impiedosa e avassaladora. O Suicídio não se resume apenas no ato isolado de alguém tirar a própria vida, mas em todo um contexto. Trata-se de um processo com início, meio e “sem fim”. Começa em uma pessoa com um imenso sofrimento, que já não tem mais esperanças e não quer mais viver, botando fim a própria vida. Mas esse final só ocorre para a própria pessoa que partiu, enquanto as pessoas que ficam continuam no caminho de sofrimento, carregando essa bagagem de perda traumática por muito tempo, quiçá para sempre. Os que ficam são os chamados “sobreviventes do suicídio”. Ao contrário do que o nome pode sugerir, os “sobreviventes” não são somente aqueles que tentaram tirar a própria vida e não conseguiram, mas sim todos aquelas pessoas próximas que ficaram e foram afetados pelo gesto em questão.

O assunto “suicídio” é permeado por vários MITOS, dentre eles, o mito de que não se deve falar sobre o assunto com pessoas deprimidas, devido à falsa ideia de que tal conversa seria um incentivo ao ato. Pelo contrário, falar sobre o tema do suicídio proporcionará à pessoa deprimida (ou desesperada) um espaço de escuta e acolhimento, podendo inclusive aliviar seu sofrimento. Saber que existem pessoas ao redor dessa pessoa que se importam, que estão ali para ajudá-la, que sofreriam imensamente com sua ausência e que existem outras alternativas que não a morte para alívio da dor, pode ser uma ferramenta muito importante para o combate a esse ato tão drástico.

Outros três mitos que envolvem esse fenômeno é o de que o suicídio é algo que “acontece repentinamente”; “de quem já tentou suicídio e não conseguiu, não tentará de novo”; e a ideia de que “quem quer mesmo se matar não ameaça, simplesmente faz”. Todas essas ideias são falsas. Como dito no início do texto, o suicídio não constitui o ato por si só. As pessoas nascem e crescem com instinto de sobrevivência e por inúmeras situações de sofrimento acabam por desistir da vida. Mas essa não é uma decisão que se dá de uma hora para outra.

Pode até ser um ato de desespero ou impulsivo, mas não é um ato gerado por um pensamento repentino. Para que uma pessoa decida tirar a própria vida, já deve ter refletido muito, já deve ter sofrido muito para chegar à conclusão que não há outra saída e até mesmo tentado se matar outras vezes. Há aqueles que sofrem em silêncio, sem dar nenhum sinal de sofrimento e existem aqueles que “ameaçam”. Essa “ameaça” não deve ser vista como um “drama”, como “vontade de chamar atenção”, ou como “chantagem emocional”, muitas vezes pode ser um pedido de ajuda que quando não acolhido, pode terminar em suicídio.

Ainda que a maior incidência de suicídio ocorra com as pessoas deprimidas, essas não são as únicas pessoas que estão mais propensas a tirar a própria vida. Pessoas com outros transtornos de humor, pessoas que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas, pessoas que passaram por circunstâncias traumáticas, seja por desastres, agressões e até mesmo pessoas que experienciam uma situação de perda financeira, podem também estar mais suscetíveis a suicidarem-se.

O suicídio decorre de um sofrimento que pode ser tratado, evitando o ato em si. São muitos os recursos para a prevenção do suicídio, dentre eles um monitoramento da pessoa em risco, evitando, na medida do possível o contato com ferramentas que podem ser usadas pela pessoa para atentar contra a própria vida, tais como remédios, armas de fogo ou armas brancas (facas, tesouras), ficar atento com janelas de prédios e, muito importante também, é a utilização de recursos terapêuticos, como a psicoterapia, a conversa, hábitos que aproximem a pessoa de si mesmo, como o contato com a arte, o esporte, o contato social. Outra ferramenta também muito importante é ter sempre como recurso, o contato rápido de uma pessoa de referência, bem como, contato da CVV (Centro de Valorização da Vida), telefone 188, para ligar caso haja um ímpeto de realização do suicídio. Já os sobreviventes do suicídio também perpassam um sofrimento grave que também merece acolhimento profissional, trata-se da chamada pós-venção ao suicídio. Esses sobreviventes também devem buscar ajuda profissional para retomar suas vidas após essa perda tão peculiarmente dolorosa.

Meu caminho até a PSI

Pisciana, nascida em março de 1980, na cidade de São Paulo, não fiz um caminho em linha reta, mas sim em zigue-zague” (no bom sentido) até encontrar meu caminho próprio (ressaltando que ainda posso encontrar outras bifurcações maravilhosas por aí).

Comecei com uma infância plena e confortável e desde criança, fui um tanto quieta, “na minha”, dada ao silêncio, permanecendo silenciosa na adolescência.

Já me interessava por Psicologia, mas como todo adolescente de 17 anos, não tinha certeza de nada.

Optei pelo caminho mais seguro, tradicional e conservador: estudar Direito. O que não foi ruim. Aprendi muito, amadureci muito, mas não sentia uma plenitude, o Direito não me completava. Nessa mesma época, durante a faculdade, olhava

os colegas maduros com certa admiração e dizia para mim mesma, “também farei isso com a Psicologia no futuro”. Mas segui acreditando que levaria a vida de escritório por algum tempo e não foi muito. A vida corporativa só durou dois anos. Uma inquietude explodiu em mim e fui tentar a vida na Europa. Deu certo, mas a experiência também durou cerca de dois anos, quando voltei para casa.

Iniciei um novo caminho por um solo fértil, florido e perfumado, trabalhando com arranjos florais. A minha passagem pelo mundo das flores foi boa, foi proveitosa, teve um papel importante em minha vida, mas teve seu fim, dando lugar exclusivo à minha verdade paixão, meu desejo de alma: A PSICOLOGIA e cá estou!