
Atualmente os diagnósticos patológicos são pautados em dois “catálogos” que definem e caracterizam uma série de doenças, são eles O DSM-V (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais – 5ª edição) e o CID – 10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – 10ª edição, em breve a 11ª edição entrará em vigor).
Desde a 3ª edição do DSM, os “transtornos depressivos” de maneira geral foram categorizados como “Transtornos de Humor”, que, por sua vez, são subdivididos em: a) Transtorno Depressivo Unipolar (a depressão propriamente dita, em suas formas, que será exposta nesse artigo); b) Transtorno Afetivo Bipolar “TAB”, que será tratado em um outro artigo, oportunamente.
O médico psiquiatra, psicólogo clínico-hospitalar e psicanalista Dr. Alfredo Simonetti, define a depressão como o estado, cujos sentimentos apresentam tonalidade afetiva negativa, com tristeza, falta de prazer. Falta de energia, perda de interesse, mal-estar, desamparo e angústia, com vivências ligadas a perdas, mortes ou fracassos.
Segundo Simonetti, as principais características da depressão são: 1) Humor Triste (a forma da pessoa enxergar o mundo é triste, sem graça, sem brilho); 2) lentificação psicomotora; 3) Anedonia (falta de prazer e interesse existencial). As demais características a serem elencadas também fazem parte dos transtornos depressivos, mas são complementares.
Existem diversos tipos de transtorno depressivo unipolar, sendo os principais: Depressão Maior; Distimia ou Depressão Leve (ou Transtorno Depressivo Persistente); e Depressão Secundária, dentre outras.
A gravidade do transtorno depressivo dependerá da quantidade de sintomas identificados na pessoa em questão, conforme veremos adiante.
De acordo com o DSM-V, a Depressão Maior é aquela que apresenta um maior número de sintomas, pressupondo a existência de ao menos cinco dos seguintes: humor deprimido; acentuada diminuição do interesse ou prazer grande nas atividades (anedonia); perda ou ganho significativo de peso ou do apetite; alterações do sono (insônia ou hipersonia); agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada dificuldade de raciocínio e concentração; ideação suicida ou pensamentos recorrentes em morte e até mesmo alucinações e ideias delirantes (características psicóticas), sendo pelo menos um deles o humor deprimido ou anedonia.
Para o referido diagnóstico é necessário a observação dos sintomas na maior parte do tempo por, no mínimo, duas semanas consecutivas, devendo causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
A Distimia ou Depressão Menor, por sua vez é mais leve, porém crônica e constante, com duração de, pelo menos, dois anos consecutivos, pressupondo humor deprimido na maior parte do dia e ainda, dois ou mais dos seguintes sintomas: Alteração no apetite (diminuição ou aumento); insônia ou hipersonia; baixa energia ou fadiga; baixa autoestima; concentração diminuída ou dificuldade em tomar decisões; e sentimentos de desesperança.
Para ambos os diagnósticos acima, é necessário que os sintomas relatados não sejam provenientes de alguma outra doença orgânica, nem do uso ou abstinência de substâncias psicoativas, sendo nesse caso enquadrado em casos de Depressão Secundária. Também não se deve constatar episódios de “mania” (exaltação), sendo nesse caso sintomas próprios do Transtorno Afetivo Bipolar.
Já o CID 10 categoriza essa patologia pelo código F32 e a classifica como “episódios depressivos”, definindo-a da seguinte forma:
“Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da autoestima e da autoconfiança e frequentemente ideias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave”.
As causas dos Transtornos Depressivos podem ser explicadas por uma perspectiva biológica ou psicológica.
No que diz respeito à perspectiva biológica dos transtornos depressivos, pesquisas indicam que pode haver uma predisposição genética, um desequilibro bioquímico e, ainda, alterações na atividade cerebral.
No organismo humano existem sistemas neurotransmissores que exercem influência na regulação do humor, sendo os principais a Serotonina e a Noradrenalina/Norepinefrina que interagem com outros neurotransmissores e neuromoduladores. Sabe-se que a baixa produção ou circulação desses neurotransmissores no organismo acarretam em um humor deprimido.
Ademais, estudos mostram menos atividade cerebral durante os episódios depressivos. O lobo frontal esquerdo, que desempenha uma atividade significativa em momentos de emoções positivas, fica mais propenso à inatividade durante os estados depressivos, com ativação do lado direito do córtex pré-frontal. Estudos também mostram que o lobo frontal de pessoas deprimidas é 7% menor que o de pessoas não deprimidas e ainda possuem um hipocampo mais vulnerável a danos relacionados ao estresse.
Com relação à perspectiva psicológica, é possível constatar-se que eventos estressantes e traumáticos, como perdas e mudanças no estilo de vida, podem contribuir para que o indivíduo desenvolva um transtorno psicológico, inclusive, o transtorno de humor. Sob determinadas condições as pessoas se tornam deprimidas quando acreditam que não têm controle sobre o estresse ou trauma em suas vidas, atingindo uma sensação de desesperança e desistência.
Um fato triste, por si só, não indica, necessariamente, o desenvolvimento de um transtorno. É importante observar a perspectiva do sujeito sobre determinado fato. Ainda que seja um fato negativo, o sujeito pode encontrar um bom direcionamento para conduzir sua vida naquele contexto, ou, pelo contrário, mergulhar em um sofrimento sem fim.
A forma de pensar do indivíduo também pode influenciar no desenvolvimento de um episódio depressivo. Pessoas deprimidas enxergam a vida através de lentes escuras. Usam suposições intensamente negativas sobre suas vidas, levando-as a expandir as experiências ruins e minimizar as experiências boas.
Essa tendência a ver a vida de um lado negativo pode sim ter uma origem orgânica ou genética, ocasionando uma relação de causa e efeito que se retroalimenta. Pessoas com visão distorcida de suas experiencias considerando-as negativas, podem estar mais vulneráveis a fatos estressantes, que por sua vez irá confirmar sua forma de visão e assim sucessivamente.
O transtorno depressivo pode ser tratado por meio de medicação e/ou Psicoterapia.
Os medicamentos mais usados para o tratamento da depressão são os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS); antidepressivos tricíclicos e os Inibidores da Monoaminoxidase. Quaisquer desses tipos de medicamentos devem ser prescritos por um médico, de preferência, um psiquiatra, sendo que durante todo o tempo de utilização da medicação até seu encerramento deve haver o acompanhamento do médico responsável.
Já a psicoterapia é feita com um psicólogo devidamente inscrito o Conselho Regional de Psicologia do estado em que atua. Cada psicólogo terá a sua forma de atuação de acordo com a abordagem escolhida. São exemplos de abordagens de atendimento psicoterapêutico: Psicologia Humanista; Gestalt-terapia; Abordagem Centrada na Pessoa; Fenomenologia-Existencial; Terapia Cognitivo-Comportamental; Análise do Comportamento, dentre outras.
Referências:
Barlow, David H; Durand, Mark R. Psicopatologia: uma abordagem integrada. Tradução Noveritis do Brasil; Revisão técnica Thais Cristina Marques dos Reis. 2ª edição. São Paulo: Cengage Learning, 2018.
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Myers, David G. Psicologia. Tradução Daniel Argolo Estill; Heitor M. Corrêa. 9ª edição. Rio de Janeiro: Editora gen LTC, 2012.
Organização Mundial da Saúde. CID-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 1997.
Simonetti, Alfredo. Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença. 8ª edição. Belo horizonte: Artesã Editora, 2018.





