Suicídio: um assunto necessário

Este é um fenômeno devastador que, quando acontece perto de nós, transforma nossas vidas radicalmente, de maneira impiedosa e avassaladora. O Suicídio não se resume apenas no ato isolado de alguém tirar a própria vida, mas em todo um contexto. Trata-se de um processo com início, meio e “sem fim”. Começa em uma pessoa com um imenso sofrimento, que já não tem mais esperanças e não quer mais viver, botando fim a própria vida. Mas esse final só ocorre para a própria pessoa que partiu, enquanto as pessoas que ficam continuam no caminho de sofrimento, carregando essa bagagem de perda traumática por muito tempo, quiçá para sempre. Os que ficam são os chamados “sobreviventes do suicídio”. Ao contrário do que o nome pode sugerir, os “sobreviventes” não são somente aqueles que tentaram tirar a própria vida e não conseguiram, mas sim todos aquelas pessoas próximas que ficaram e foram afetados pelo gesto em questão.

O assunto “suicídio” é permeado por vários MITOS, dentre eles, o mito de que não se deve falar sobre o assunto com pessoas deprimidas, devido à falsa ideia de que tal conversa seria um incentivo ao ato. Pelo contrário, falar sobre o tema do suicídio proporcionará à pessoa deprimida (ou desesperada) um espaço de escuta e acolhimento, podendo inclusive aliviar seu sofrimento. Saber que existem pessoas ao redor dessa pessoa que se importam, que estão ali para ajudá-la, que sofreriam imensamente com sua ausência e que existem outras alternativas que não a morte para alívio da dor, pode ser uma ferramenta muito importante para o combate a esse ato tão drástico.

Outros três mitos que envolvem esse fenômeno é o de que o suicídio é algo que “acontece repentinamente”; “de quem já tentou suicídio e não conseguiu, não tentará de novo”; e a ideia de que “quem quer mesmo se matar não ameaça, simplesmente faz”. Todas essas ideias são falsas. Como dito no início do texto, o suicídio não constitui o ato por si só. As pessoas nascem e crescem com instinto de sobrevivência e por inúmeras situações de sofrimento acabam por desistir da vida. Mas essa não é uma decisão que se dá de uma hora para outra.

Pode até ser um ato de desespero ou impulsivo, mas não é um ato gerado por um pensamento repentino. Para que uma pessoa decida tirar a própria vida, já deve ter refletido muito, já deve ter sofrido muito para chegar à conclusão que não há outra saída e até mesmo tentado se matar outras vezes. Há aqueles que sofrem em silêncio, sem dar nenhum sinal de sofrimento e existem aqueles que “ameaçam”. Essa “ameaça” não deve ser vista como um “drama”, como “vontade de chamar atenção”, ou como “chantagem emocional”, muitas vezes pode ser um pedido de ajuda que quando não acolhido, pode terminar em suicídio.

Ainda que a maior incidência de suicídio ocorra com as pessoas deprimidas, essas não são as únicas pessoas que estão mais propensas a tirar a própria vida. Pessoas com outros transtornos de humor, pessoas que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas, pessoas que passaram por circunstâncias traumáticas, seja por desastres, agressões e até mesmo pessoas que experienciam uma situação de perda financeira, podem também estar mais suscetíveis a suicidarem-se.

O suicídio decorre de um sofrimento que pode ser tratado, evitando o ato em si. São muitos os recursos para a prevenção do suicídio, dentre eles um monitoramento da pessoa em risco, evitando, na medida do possível o contato com ferramentas que podem ser usadas pela pessoa para atentar contra a própria vida, tais como remédios, armas de fogo ou armas brancas (facas, tesouras), ficar atento com janelas de prédios e, muito importante também, é a utilização de recursos terapêuticos, como a psicoterapia, a conversa, hábitos que aproximem a pessoa de si mesmo, como o contato com a arte, o esporte, o contato social. Outra ferramenta também muito importante é ter sempre como recurso, o contato rápido de uma pessoa de referência, bem como, contato da CVV (Centro de Valorização da Vida), telefone 188, para ligar caso haja um ímpeto de realização do suicídio. Já os sobreviventes do suicídio também perpassam um sofrimento grave que também merece acolhimento profissional, trata-se da chamada pós-venção ao suicídio. Esses sobreviventes também devem buscar ajuda profissional para retomar suas vidas após essa perda tão peculiarmente dolorosa.

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