
Há alguns dias, postamos um artigo falando do bullying enquanto desdobramento de situações anteriores de violência, negligência e autoritarismo. Vimos que se trata de uma situação de violência aprendida e propagada, seja na a escola ou em outro ambiente de socialização, inclusive de adultos.
Mas se quem propaga o bullying são pessoas que já foram vítimas de alguma circunstância desajustada, quem são seus alvos? O que os diferencia?
Na situação de bullying há uma evidente configuração de desequilíbrio de força e poder. Ainda que o agressor já tenha sido vítima, em circunstâncias prévias àquele ambiente social, agora ele muda de posição. O oprimido passa a ser o opressor.
As pessoas que experimentam o bullying, de maneira geral, são aquelas que em algum momento da socialização transpareceram maior fragilidade e menos ferramentas internas de posicionamento ou defesa. Também podem ter vivenciado situações impróprias de tratamento de seus cuidadores, como negligência, maus-tratos, e até falta de afeto, acarretando maior vulnerabilidade afetiva, psicológica e social.
Entretanto, em vez de terem sua agressividade aflorada e repassarem esse mal adiante, essas pessoas deixam esse sofrimento contido e internalizado, refletindo baixa autoestima e, consequentemente, tornam-se passivos alvos de bullying, com poucos recursos de enfrentamento das adversidades.
A diversidade também é um fator que pode contribuir para que uma pessoa se torne o alvo do bullying. O diferente tem dificuldade em se encaixar e sua diferença, se torna justamente um destaque percebido e não tolerado por outros e, dessa forma, passa a receber insultos, intimidações, agressões físicas e verbais, e até exclusões e protagonistas de boatos cruéis.
Se entre os meninos, de maneira geral, é comum que as agressões se tornem físicas, nas meninas, isso é pouco comum. Nelas, os maus tratos e hostilidade se manifestam em atos mais sutis, que não são menos prejudiciais. Há uma violência psicológica que é muito forte, podendo ser verbais, como os insultos e não verbais como as exclusões de grupos.
Uma outra situação é a de pessoas que testemunham o bullying em outros colegas e amigos. Alguns tomam suas defesas, mas, infelizmente é bastante comum que não interfiram, para evitar se tonarem os próximos alvos.
Uma vez instaurada a situação de bullying a vítima percorre um caminho de dor, sofrimento, e muitas vezes, solidão.
De certa forma, essas pessoas passam a acreditar no que é dito sobre elas e depreciam-se a si mesmas. Ficam mais isoladas, evitando o contato social (se estudantes, podem ter o comportamento de evasão escolar) e, muitas vezes desenvolvem sintomas psicossomáticos e tendem ao consumo de substâncias psicoativas, autolesões no corpo (como o cutting) e, numa hipótese muito drástica, o suicídio.
A autoestima que provavelmente já era baixa, diminui ainda mais. Os sentimentos de inferioridade, impotência, “menos valia” intensificam-se, assim como a depressão e emoções negativas, como medo, ansiedade e estresse, podendo comprometer a habilidade em contato social e relacionamentos. Os efeitos não são apenas de curto, mas de longo prazo e podem ser levados ao longo de uma vida.
O bullying é um mal que deve ser observado e controlado em sua origem. Não é à toa que se diz que a “educação” é a base de tudo. Crianças que recebem de seus cuidadores, carinho, afeto, atenção e um cuidado com a educação têm mais chances de ter mais estabilidade emocional, autoestima e empatia. Desse modo, serão menos impetuosas e violentas, por um lado, e por outro, conseguirão se valorizar e se posicionar quando expostas a algo incômodo por seus pares.
Com essa configuração ideal de cuidado e ensinamentos, a violência pode até se apresentar, ocasionalmente, mas seria menos crônica.
Nas escolas, que são os primeiros ambientes de interação nos quais as crianças se inserem, e constroem processos de socialização para a vida, deve haver uma conscientização sobre o assunto, numa perspectiva macrodinâmica. Deve-se incentivar a amizade, respeito, valorização dos diferentes tipos de personalidades, sejam essas mais expansivas ou introspectivas, a tolerância às diferenças, e, ainda, a defesa das pessoas menos empoderadas.
Por outro lado, numa perspectiva mais pontual, os membros da equipe pedagógica devem estar atentos para identificar situações de bullying e combatê-lo, conjuntamente com pais e cuidadores. Os primeiros sinais de desarmonia na escola devem ser observados e ter um direcionamento para a empatia e aceitação.
Pais que recebam reclamações de seus filhos como agressores, devem participar na conscientização de seus filhos do mal que estão infligindo aos colegas. Ajudá-los a perceber que o bullying não é brincadeira, tampouco um modo saudável de resolver suas frustrações e angústias. Devem ensiná-los o respeito ao próximo, aceitação das diferenças e, sobretudo, a empatia e a compaixão.
Já os pais que identificam seus filhos como vítimas do bullying devem agir, com foco e determinação. As crianças e adolescentes que sofrem bullying muitas vezes não pedem ajuda. Esse não é um assunto de fácil conversa para eles. Muitas vezes sentem vergonha de abrir essa situação para seus cuidadores, pois contar para um adulto que está sendo humilhado também pode ser humilhante para este jovem. Muitas vezes seus recursos e suas forças de combater à situação minguam até que se vejam entregues.
Esses pais devem acompanhar de perto a rotina de seus filhos e observar seus comportamentos e sentimentos com uma frequência regular. Mostrar interesse em seus sentimentos e, caso constatem algo incomum, acionem o alerta e ofereçam ajuda psicológica, emocional e social.