
Qual criança ou adolescente já se encontrou (ou ainda se encontra) em uma situação de constrangimento ou provocações entre colegas e “amigos”? Qual adulto não se lembra de ter passado por isso? Ou ainda, qual pessoa, de qualquer idade já viu alguém ser submetido a essa situação “sem saída”?
Antes de tudo, cabe esclarecer o significado da palavra “brincadeira”. Segundo o dicionário, a palavra remete ao “ato de brincar”; que, por sua vez, denota “divertir-se”, dentre outros sinônimos que causam “bem-estar” e “descontração”.
Quando, pelo menos, um participante desse contexto de descontração passa a ser alvo de provocações, receber apelidos desconfortáveis ou qualquer forma de tratamento desagradável ou quando algum dos envolvidos não quer mais participar e é obrigado a receber esse tratamento, isso deixa de ser uma brincadeira e passa a ser uma imposição. Essa imposição recebe o nome de “Bullying”.
O termo “bullying” é uma palavra de origem inglesa, derivada de “bully” que, em tradução livre, significa “valentão”. A(s) pessoa(s) que ocupa(m) esse lugar de “valentão” faz(em) uso de sua força física ou poder de influência sobre outros para intimidar, abusar, dominar, humilhar e até mesmo agredir alvos com menos recursos de defesa, de forma frequente e habitual.
O bullying não é brincadeira. É agressão: psicológica, verbal e, muitas vezes, física. Trata-se de uma relação de abuso de poder, repleto de humilhações, podendo gerar, inclusive, exclusão e discriminação.
Esse fenômeno é muito comum entre crianças e adolescentes, no ambiente escolar, mas não se circunscreve apenas dentro dos muros da escola, podendo ocorrer do lado de fora e até mesmo cyberbullying. Ressalta-se que esse fenômeno não é uma exclusividade de estudantes e escolares, podendo ocorrer também entre adultos, em ambientes de trabalho e sociais.
Mas de onde vem o bullying e por que ele se manifesta?
Será que, de fato “o homem é o lobo do homem”, como pensava Thomas Hobbes, e o ser humano é naturalmente mau e egoísta? Ou será que, conforme pensava Rousseau “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”? Talvez ambos os pensamentos tenham um tanto de verdade.
Considerando a individualidade de cada pessoa, a manifestação do seu “modo-de-ser” ocorre de diversas formas. É possível que o indivíduo nasça, sim, com uma tendência a praticar atos violentos. Mas falaremos aqui da violência aprendida.
Percebe-se, de maneira geral, que as pessoas que possuem experiências de violência marcantes na infância, tendo sofrido ou testemunhado atos de violência em casa, por parte de seus pais, cuidadores, e até mesmo irmãos, têm mais suscetibilidade de se tornarem agressivas. Aprendem comportamentos violentos em suas casas, crescem com a noção de que são comportamentos normais e repetem tais comportamentos com amigos, colegas e nas demais relações interpessoais.
Mas não são apenas os atos violentos em si, aprendidos dentro ou fora de casa que originam o bullying.
Pessoas que sofreram alguma forma de negligência parental ou falta de afetividade na infância estão mais vulneráveis psicológica e socialmente e, portanto, mais sujeitas a serem parte desse fenômeno, seja na posição de agressores, quanto de vítimas.
Pais que demonstram expectativas sobre o comportamento dos filhos na sociedade ou que exercem algum tipo de monitoramento de seus filhos, estabelecendo limites, podem contribuir para a prevenção do bullying, tanto para quem os pratica, quanto para os alvos.
O autoritarismo e a superproteção parental também podem comprometer o desenvolvimento social da criança no sentido de adquirir autonomia, independência e traquejo social, que, quando insuficientes, podem torná-las mais sujeitas a serem alvo do bullying ou num sentido inverso, deixando-as menos tolerantes com as diferenças, tornando-se os algozes dos mais fracos.
Os cuidadores das crianças não devem ser os únicos responsáveis por combater o bullying preventivamente. A escola é um ambiente repleto de diversidades e, portanto, propício para a criação de rótulos, muitas vezes, pelos próprios professores. que estigmatizam os alunos com comportamento “inapropriado”, com desempenho escolar ruim ou até mesmo colocam em evidência os alunos que têm um desempenho bom, tachados de “CDFs”. Assim, os dois polos estão vulneráveis.
Aos educadores (professores e diretores) também compete a função de evitar situações em que as rotulações aconteçam e, quando identificarem um possível início de ocorrência do bullying, se mobilizem contrariamente. Devem os educadores enaltecer a diversidade e não as reprimir.
Trata-se de uma questão seríssima que deve ser combatida na origem. Podemos notar que até a pessoa que impõe o bullying aos colegas, não é simplesmente um “vilão”. Esse mal que ele propaga, em algum momento lhe foi imposto e aprendido, gerando em um ciclo vicioso.
O intuito desse artigo não é vitimizar o agressor, mas entender o bullying como um evento complexo e maléfico para todos os envolvidos, não apenas o alvo do bullying. Oportunamente, faremos um novo artigo falando sobre os efeitos do bullying em quem o recebe.